
Nenhum homem é uma ilha, mas uma mulher certamente pode tentar ser neste romance curto e de grande profundidade. Começando na encantada ilha de Chiloé, seguimos nossa narradora sem nome, uma mulher catalã que persegue o vazio, “um vazio que eu havia sonhado tantas vezes que o transformei em mastro”. Ela é uma nômade analógica num mundo digital, trabalhando de porto em porto em cozinhas de acampamento e galeões de cargueiros. Ela aprecia o esforço elementar e visceral de seu trabalho: “a coisa de que mais gosto no meu trabalho é lidar com a comida enquanto ela ainda está inteira… a comida chega até nós embrulhada em pele, e para prepará-la você precisa de uma faca”; o fazer do pão parece satisfazer mais do que apenas a fome:
Começo a massa nas noites e deixo crescer a noite toda. Gosto de me enfiar debaixo das cobertas sabendo que lá fora outro corpo coberto está acordado, trabalhando em meu favor.
Mas tudo isso entra em risco quando ela conhece Samsa, uma geóloga que ela supõe à primeira vista ser “escandinava e que ganha a vida numa multinacional com sangue nas mãos”, uma avaliação que se revela correta. Após algumas atracações quentes, embora irregulares, em vários portos chilenos (“me tornei consciente do magma fervendo sob o milagre dos nossos oceanos e continentes”), nossa narradora parte para se juntar a Samsa numa vida doméstica islandesa, provando que não importa quantos oceanos as separem, lésbicas sempre darão um jeito de se mudar juntas nas primeiras seis saídas. Samsa rapidamente deixa sua marca em nossa narradora, chegando até mesmo a abandonar seu nome de batismo e rebatizá-la de Boulder.
A prosa densa de Baltasar, chegam perto do horror queer de estar em um mundo hétero-orientado, mas não é sobre isso, a escrita revela de forma eficaz que mesmo quando partes da nossa orientação sexual se tornam aceitáveis e confortáveis ainda temos que encarar a nós mesmos e nossos corpos.
Boulder transgride os papéis de gênero com sua protagonista que prefere a companhia rude do porão do navio (um tipo diferente de espaço confinado), a quem as crianças se aproximam “da mesma forma que gatos miram nas pessoas que são alérgicas a eles”. Ela também carrega a bagagem misógina.
Boulder desenvolve essas ideias através da imagética da geologia e da geomorfologia. Começa com uma imagem de blocos de concreto amarrando um cais ao fundo do mar. O sexo tem a força de continentes colidindo e erguendo montanhas, “borbulha como gás comprimido saindo de uma fenda na terra”; Boulder descreve o “ponto concreto entre minhas pernas”. Samsa se torna para ela:
uma montanha se erguendo diante de mim, uma fronteira natural adequada apenas para animais, repleta de morte e neve. Sua lei é mineral, o que significa que não há nada a fazer — nenhuma ameaça ou tática a que eu possa recorrer, nenhum movimento que possa abalá-la. … Em algum lugar existe uma lista com os nomes de mulheres e montanhas como Samsa.
Baltasar extrai muito, frequentemente muito engraçado, do contraste entre essas forças planetárias e as fragilidades humanas de seus personagens. “Todo orgasmo é um pequeno funeral”, Boulder comenta sombriamente sobre a natureza do sexo pré-parental, e mais tarde num grupo onde as novas mães amamentam juntas: “são orgias”. Boulder parece ansiar por escapar de sua prisão de carne, pela dureza lisa de uma vida não enredada nas coisas que tornam a vida vivível, mas ela não conta com as forças magmáticas fervendo sob a superfície. “Sangue, o dedo-duro que todo mundo odeia”, escreve Boulder. “Ele te mantém vivo sob uma condição: transparência”.