Margot Hollander tem 64 anos, um cãozinho pequeno e uma tiny house na Holanda. E, olha, ela está bem melhor do que muita gente em apartamento de 80m² fingindo que tá tudo bem.

O maior local de Minitopia fica em Eindhoven, na Holanda.

Deixa eu contextualizar: quando o casamento acabou, Margot se viu diante de um mercado imobiliário impossível. Alugar estava caro demais. Financiar estava fora de cogitação, já que banco não dá hipoteca pra quem é aposentada. A solução que ela encontrou foi comprar uma tiny house no Minitopia, um vilarejo de casinhas minúsculas em Eindhoven, na Holanda, e pagar tudo à vista, cerca de 143 mil dólares. E sabe o que aconteceu? Ela recomeçou. De verdade.

O QUE É O MINITOPIA E POR QUE A GENTE PRECISA SABER

O Minitopia é um projeto de moradia alternativa que começou em Den Bosch, na Holanda, e se expandiu para outras cidades. A unidade de Eindhoven é a maior delas, com espaço para 100 casas minúsculas. Cada moradora ou morador constrói ou compra sua própria casinha dentro de um terreno coletivo, pagando um aluguel de solo de algumas centenas de euros por mês, um valor muito abaixo do que seria necessário para viver numa casa convencional na mesma cidade.

O vilarejo mistura gente de todos os tipos: jovens recém-formados que querem fugir do mercado imobiliário absurdo, casais com filhos pequeninhos, aposentadas como Margot. Essa diversidade toda é o que faz o Minitopia parecer uma comunidade de verdade, e não um condomínio temático de minimalismo instagramável.

A CONTA QUE O MERCADO IMOBILIÁRIO NÃO QUER QUE VOCÊ FAÇA

Pois é, vamos falar de dinheiro porque é impossível não falar.

Margot foi professora de dança e trabalhou em gestão de projetos no setor habitacional. Aposentada, ela sabia que teria que viver dentro do que seus recursos permitiam. A lógica é simples: quanto mais você gasta com moradia, menos sobra pra todo o resto. E o resto, pra ela, inclui esporte, que é onde ela gosta de colocar seu dinheiro.

Com painéis solares instalados na casinha, ela não paga conta de luz. O custo mensal de manutenção é significativamente menor do que o de uma casa convencional. Ela não tem hipoteca. Não tem um aluguel que corrói metade do salário. Tem independência financeira, que, convenhamos, é um dos poucos tipos de independência que a sociedade ainda não conseguiu tornar complicada pra mulher divorciada.

MAS NÃO É TÃO SIMPLES ASSIM

Seria desonesto ignorar que a solução do Minitopia não é acessível pra todo mundo. Margot pagou cerca de 143 mil dólares à vista. Isso, no contexto brasileiro, é um valor completamente fora da realidade da maioria das mulheres que saem de um casamento sem poupança própria, sem patrimônio no próprio nome, sem renda de aposentadoria razoável.

A história de Margot é bonita e real, mas ela vem embalada num privilégio específico: o de ter tido, ao longo da vida, acesso a um emprego formal, a uma aposentadoria funcional, a um sistema de saúde público que não a deixa refém de plano de saúde caro. Esse contexto holandês é importante de nomear. O modelo do Minitopia só funciona porque existe uma infraestrutura pública que sustenta a vida das pessoas ao redor dele.

Dito isso, a pergunta que fica no ar é: o que nós, aqui, podemos aprender com isso?

POR QUE ISSO IMPORTA PRA GENTE

Tem algo muito específico e muito feminino na história de Margot que precisa ser lido com calma.

Ela escolheu não levar nenhum móvel da casa antiga. Quis começar do zero, com obras de arte que ela mesma escolheu, com persianas no estilo que ela queria, com um cachorro e um silêncio que é dela. Após o divórcio, ela disse, a tiny house lhe deu independência.

O divórcio feminino tardio, esse fenômeno que cresce em quase todo o mundo, costuma chegar acompanhado de uma conta assustadora. Mercado imobiliário hostil, dificuldade de crédito, filhos já crescidos mas que ainda olham com desconfiança pra mãe que resolveu mudar tudo. Margot já ouviu a pergunta implícita de onde vai morar agora e respondeu comprando uma casinha de 20m² e colocando nela exatamente o que ela quis.

Tem algo aí que parece um roteiro de filme, mas é jornalismo.

A VIDA NO VILAREJO

Margot conta que fazer amizades no Minitopia é fácil. Ela encontra gente toda vez que leva o cachorro pra passear. Não precisa marcar encontro formal pra tomar um drink com a vizinha, simplesmente sai de casa e a conversa acontece. Tem algo nisso que lembra aquele tipo de vida comunitária que a gente idealiza mas raramente consegue de verdade em apartamentos de cidade grande, onde a gente mal sabe o nome de quem mora do lado.

Ela ressalta, inclusive, que não quer que o Minitopia vire um gueto de aposentados. Quer a mistura, quer os jovens, quer o barulho de vida que vem de uma comunidade que não tem perfil único.

E AGORA?

Margot diz que espera que aquela seja sua última casa, mas torce para que ainda tenha muitos anos pela frente para vivê-la. Há algo de muito calmo e muito corajoso nessa frase. Não é resignação. É uma mulher que escolheu, aos 62 anos, depois de um casamento que acabou, depois de um mercado que disse que ela não tinha mais as credenciais certas, construir uma vida do tamanho exato que ela queria.

Não precisa ser 20m². Pode ser qualquer coisa. O tamanho é só detalhe.

O que importa é que ela escolheu.